sábado, 10 de dezembro de 2011

Vida moderna (Parte 1)

A sala era integrada com a cozinha, o pequeno apartamento de dois quartos tinha apenas dois sofás de dois lugares e um aquário com pequenos peixes.
No Box do banheiro por trás a cortina um corpo masculino a tomar banho, o relógio sobre a pequena pia maçava seis e quinze e aberto sobre a bancada um notebook e na tela um site de negócios e ações da bolsa.
Sobre a cama um corpo feminino estendido meio que largado sobre a cama enrolado por um lençol somente com os pés descobertos e o braço direito caído para fora da cama, mão meio que perdida procurava no teclado do notebook o botão de acionamento da máquina, mas tudo com a cabeça coberta pelo lençol.

O rapaz de nome Renato saiu do banheiro enrolado na toalha e vai direto para o quarto abrindo o guarda-roupa e nesse momento a moça levanta e pega a toalha e vai em direção ao box do banheiro.
A água já estava fervendo dentro da cafeteira sobre a pia, ela senta e abre um iogurte, passa manteiga em alguns biscoitos, ele coloca a jarra de café sobre a mesa, beija-a sobre os lábios e diz:

- O que tem de importante hoje. – pergunta Renato.

- Tem uma reunião com o seu Saulo, apresentar o projeto e avaliar, só que detesto reunião por áudio, não dá pra ver o verdadeiro semblante de cada um do outro lado.
- E você que tem? – pergunta Isabel.

- vou almoçar com um cliente, uma nova construção no Leblon, hoje a gente fecha e se tudo correr bem em breve a gente pode pensar no financiamento do apartamento.

Neste momento com movimentos sincronizados, os dois guardam os notebooks nas mochilas, celulares nos bolsos e já na porta ele grita espera, tenho que dar comida pra Sansão o pequeno peixe morador do aquário da sala que escondido entre pedrinhas no fundo parecia que adormecia.

O carro saiu da garagem e quando o portão ainda se abria Isabel dava um bom dia com as mãos em aceno ao seu Vicente o porteiro.
O carro pára em frente a construtora, eles se despedem com um beijo rápido, Renato desce do carro entrando no prédio e Isabel segue pelo trânsito.Renato chega no escritório e como toda manhã os amigos se reúnem para tomar café numa cozinha pequena ao fundo do corredor onde o papo é colocado em dia e rola as fofocas. A Márcia como sempre fala das peripécias da filha de três anos que fica com a sogra durante o dia, o marido um gordo chato trabalha na telefônica e liga pra ela o dia todo.
O Jorge um negão, quarentão, solteiro que está sempre namorando, mas que ninguém viu a moça nem em foto e uns dizem que o cara leva jeito enrustido, mas sem dúvida é o melhor projetista do escritório, a arquitetura está no sangue, estagiou no escritório do Niemeyer.

Todos sempre tinham alguma coisa para contar, Renato comentava os problemas de casa e de casado, após quase dois anos de namoro, ele no último ano da faculdade conheceu Isabel que também esta se formando em informática, foi um namoro muito corrido onde os dois estagiando, estudando e no fim de semana ele para Petrópolis ela para Campos, às vezes ficavam no Rio e outras semanas intercalavam para a casa dos pais.
Quando efetivados resolveram alugar um apartamento dois quartos e juntar as coisas, mas para não chatear as famílias de ambos casaram-se só no cartório e ofereceram um jantar só para poucos parentes num salão de festas ali em Botafogo e desde então estão num corre-corre da vida cotidiana em busca das realizações de um jovem casal.
Mas o assunto no café como sempre eram os mesmos e Renato reclamava que Isabel se esquecia de pagar a conta de luz ou água, sempre causando correria na virada do mês. No fundo a culpa não era só dela é que Renato por ser com as coisas de casa desde o início do relacionamento, esta tarefa de contas era de Isabel, as compras em geral estavam sobre a responsabilidade dele, pois ela detestava fazer mercado.

O telefone toca e Renato atende, era Isabel:

- A que horas você vai sair?

- Vou sair um pouco mais tarde, pode ir que eu vou tomar um chope com o pessoal. Responde Renato.

Isabel desliga o telefone, já conhecia a história, toda terceira semana do mês o pessoal saia para um barzinho, ela não tinha nada contra é que Renato sempre bebia além do normal e isso a incomodava. Toda quarta-feira era o dia da faxina na casa, colocar roupas na máquina para lavar e preparar algumas comidas em potes e colocá-las no congelador, coisas da vida moderna de um casal que tem pouco tempo e dinheiro para contratar uma empregada numa cidade grande como o Rio.

A porta do apartamento abre devagar, Renato coloca a mochila sobre o sofá, ouvia-se um ruído de máquina trabalhando e água caindo na pia da cozinha, chegou à porta:

- E aí, tudo certo?

Ela olhando pra trás com a cara fechada.
- A farra foi boa, já é tarde.

- Que é isso, é oito e quarenta da noite. Responde Renato.

- Você sabe que hoje é quarta feira poxa, eu sozinha pra fazer tudo. Reclama Isabel.

- Não pode dizer que eu não te ajudo, quem limpa a casa, os móveis, faz mercado, agora eu não sei fazer comida, lavar roupa, acho melhor a gente parar por aqui, estamos brigando por nada, o que tem pra eu fazer.

- Nada mais, já estou terminando, só falta a comida essa eu preparo, vá tomar banho.

Um comentário:

Silencio disse...

Hahaha, típica vida de casal moderno. Lendo assim é superdivertido! Esperando ansiosa já a segunda parte! Bjinhos...

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